O analista financeiro Silveira Nunda disse à Lusa que a procura das acções da Unitel deverá exceder a oferta e garantir o êxito da maior operação já realizada na bolsa angolana, embora o preço praticado esteja sobrevalorizado.
O especialista sustentou que a forte procura é justificada pela qualidade do activo, à semelhança das operações anteriores no mercado de capitais angolanos, factor relevante para o sucesso da IPO (Oferta Pública Inicia) apesar do preço sobrevalorizado.
Silveira Nunda destacou que a Unitel domina o mercado angolano das telecomunicações, mais de 70% da quota de mercado e cobertura em todo o país.
O analista recordou que nas operações anteriores “a procura sempre excedeu a oferta e a base de investidores sempre cresceu”, citando o caso do Banco de Fomento Angola (BFA), que trouxe para o mercado de capitais 8.488 novos accionistas.
O consultor advertiu, contudo, que a avaliação fundamental do negócio revela uma sobrevalorização ao preço praticado na oferta.
Segundo o analista, o lucro operacional da Unitel representa menos de metade do resultado líquido do exercício, sendo o resultado influenciado pelos investimentos financeiros da empresa, nomeadamente os dividendos recebidos do BFA.
“Isso acaba fazendo com que a empresa fique relativamente cara ao preço que está a ser praticado agora”, afirmou, considerando que o valor pressupõe que o negócio cresça, no mínimo, duas vezes por ano.
Assumindo um crescimento sustentável e constante, prosseguiu, a empresa “está muito cara” e faria mais sentido colocar o dinheiro noutro instrumento financeiro, uma leitura que, ressalvou, “nem todos os investidores dominam”.
Segundo Silveira Nunda, os investidores institucionais, que avaliam os fundamentos do negócio, poderão entender que faz mais sentido investir noutro ativo com um retorno mais sustentável.
Ainda assim, concluiu, a procura deverá exceder a oferta, devido à qualidade do activo, sem que exista garantia de qual será a sua dimensão.
A Unitel lançou na segunda-feira para venda 7,5 milhões de acções, correspondentes a 15% do capital, prevendo um encaixe de cerca de 300 mil milhões de kwanzas (281,9 milhões de euros).
O preço unitário varia entre 36 mil kwanzas (33,8 euros) e 40 mil kwanzas (37,5 euros), estando previsto o fim do período da Oferta Pública de Venda (OPV) no dia 24 deste mês e a fixação do preço final a 27 de Julho.
A Unitel, maior empresa de telecomunicações angolana, detém cerca de 73% da quota de mercado, tem 25 anos de existência e perto de 21 milhões de clientes, tendo registado em 2025 um resultado líquido superior a 158 mil milhões de kwanzas (148,5 milhões de euros).
A operadora é actualmente detida por dois acionistas, o Estado angolano, com 50% através do Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) e a petrolífera estatal Sonangol, com os restantes 50%, através da MS Telecom e da PT Ventures, cada uma com 25% do capital social.
Dos 15% das acções agora à venda, 2% destinam-se aos trabalhadores e 13% ao público em geral, estando oito entidades a comercializar os títulos, cuja entrada em bolsa está prevista para dois dias após a fixação do preço final.

